A Lenda da Ponte da Saudade

Conforme publicado no livro LENDAS DE PAQUETÁ, de Marcelo Augusto Limoeiro Cardoso

Esta ponta de cais, chamada “A Ponte da Saudade”, nem sempre foi assim, tão bem tratada. Recente reforma transformou-a totalmente. Era apenas uma fileira de pedras superpostas que avançavam pelo mar: – rude, como as belezas silvestres do seu tempo; pobre, como os escravos que a fizeram.
Quem passa por ela, não pode imaginar que ali existe a sutileza de uma lenda escrava; uma das mais belas lendas de Paquetá; fruto verdadeiro das senzalas, a relembrar três séculos de opróbrio de uma raça a quem devemos tanto.

Foi plantada neste cais pela superstição dos negros, mas, como estava sobre as pedras, a semente dessa estória permaneceu latente durante um longo tempo, até que um preto-velho, dando-lhe com a mão, fez com que caísse no terreno fértil do folclore: na página que herdamos das crendices africanas. Assim, cresceu e frutificou, e o gosto do seu fruto tem o sabor da estória que este preto nos contou:

-“Tudo aconteceu no tempo em que os escravos desembarcavam neste cais, vindos de Brocoió, onde faziam quarentena, antes de entrar em contato com a população de Paquetá. Por esse fato é que o cenário desta estória teve como palco este lugar.

Seu personagem principal foi um preto forte e triste, chamado pelos negros de João Saudade e, pelos feitores, de João da Nação Benguella. Seu nome criou fama nas senzalas onde, na prosa dos mais velhos, foi um mito, falado e venerado por toda a gente escrava.

João da Nação Benguella, no tempo do mil réis, foi vendido aqui por 400$000, avaliados pela força e robustez da exuberância muscular do seu contorno.

Dizem que veio da África num dos navios negreiros de Francisco Gonçalves da Fonseca, o dono do “Solar Del’Rei”.

Como era de costume, depois da quarentena em Brocoió, veio para ca numa falua, que uma vez por mês encostava neste cais da “Praia das Pedreiras”.

João obedeceu com resignação ao costumeiro ritual; porque em seu peito não havia lugar – nem para ódios, nem para revoltas – porque já estava todo cheio de um outro sentimento: a enorme saudade que lhe fazia sofrer por Januária, e lhe fazia viver pelo amor de Loreano, um pretinho rechonchudo; filho deles dois.

João Saudade não podia imaginar o que fora feito deles. Quando foi capturado, não houve tempo nem para um abraço, nem para um “adeus”!

Os anos passavam-se lentos e João passava os anos rezando pelo amor dos dois. No íntimo de si havia uma certeza estranha… uma esperança, que a falange de Iemanjá, que o trouxera sobre as ondas, também traria seus dois amores que, um dia, ele veria chegar naquela “ponte”, depois de alguma quarentena em Brocoió. Algo lhe dizia que o destino lhe havia reservado um reencontro… e era por ele, que rezava aos guias e esperava ali a cada desembarque.

Passaram-se os anos. E cada ano que passava era mais longo… mas nenhum, maior que a perseverança de João “Benguella”. Durante o dia, trabalhava nas caieiras; e à noite, rezava junto ao cais, conversava com a Lua, falava com as estrelas, molhava os pés cansados nas águas amenas deste mar, e lavava as suas mágoas nas gotas de sereno. Somente quando ouvia o pio das primeiras aves despertadas é que parava de falar com a Estrela Dalva. Olhava para o céu, despedia-se da noite já passada; dava um bom dia para a madrugada e voltava… devagar e triste, para as tristezas da senzala.

Todos os dias João chegava, cabisbaixo… cansado de rezar em vão, por encontrar um lenitivo para a dor desta saudade que, amargurando a sua alma, minava a resistência do seu coração, transbordando-lhe nos olhos refletida em cada lágrima.

João não era apenas um escravo triste. Para alguns dos velhos, era a própria encarnação humana da saudade.

O tempo passava como de costume, no correr dos anos: João, sua Saudade, os desembarques, o velho cais… Mas eis que um dia, João não regressou com os passarinhos… e os escravos, na senzala, deram falta dele e, em vão, o procuraram.

O desaparecimento de João Saudade aconteceu na manhã seguinte de uma 6a feira em que a rotina da noite foi quebrada por um fato de espanto e de mistério: – talvez por dois minutos, um clarão estranho transformou a noite em dia, sem que ninguém soubesse explicar por que! Apenas viram surgir no Céu uma estrela muito grande e muito bela, e os seus raios de luz, iluminando a noite, encheram a “Ponte da Saudade” de um clarão de prata, que foi visto por todos na senzala. Quando o clarão se apagou, João Saudade, que rezava no cais, havia desaparecido juntamente com a estrela brilhante e os seus raios de luz.

Ninguém, jamais, soube explicar o que aconteceu à estrela e a João Saudade que, desde aquela noite desapareceu misteriosamente.

Tornou-se crença dos escravos que aquela estrela foi a falange iluminada de Iemanjá que, pela força da Saudade de João “Benguella”, teve permissão do Astral para buscá-lo, pondo fim ao sofrimento do seu Banzo; saudade imensa pela qual viveu, e pela qual sempre pediu para ir embora.

O cais onde João ficava passou a ser chamado de “A Ponte da Saudade”, transformando-se em local de reza e ritual dos negros, na esperança de que um dia também, pela força da Fé, fossem levados por alguma estrela… e libertados”

A noite estava bonita… toda estrelada; e o mar, refletindo a luz da lua cheia, era um espelho de prata. Olhamos o Céu, movidos por uma força superior dentro de nós: quem sabe, não poderíamos ver, entre milhares de estrelas tremeluzindo, aquela em que João Saudade encontrou seus dois amores!?

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